“Desculpe, sabe o caminho?” – Pesquisar dentro das Comunidades

Barra de pesquisa do Google num tablet

Há uns tempos questionei-me qual foi a coisa mais útil que aprendi na faculdade e na minha muito curta carreira. Aprendi que não sei tudo, nunca vou saber tudo, que tradutores não são dicionários ou enciclopédias e que a ferramenta mais importante de um tradutor é saber procurar informação, pesquisar, investigar.

Em certas áreas da tradução, como por exemplo na TAV, temos de falar por outras pessoas, na pele delas, transmitir aquilo que diriam se estivessem a falar na nossa língua. Para fazermos jus à pessoa e a todos os seus criadores, é importante transmitirmos a ideia correta, da forma correta, com o vocabulário correto, mesmo que seja uma realidade que não é a nossa ou com que não temos contacto. Quando traduzimos uma personagem mais velha, mais nova, mais informal, mais agressiva, mais educada, etc., devemos tentar transmitir isso na língua de chegada para que pareça o mais natural possível. A questão da representatividade, nas suas múltiplas formas, é cada vez mais debatida e cada vez mais importante. Se o nosso trabalho é a acessibilidade, não deve ser uma das áreas em que esta questão é mais pertinente?

Ao escrever este artigo, lembrei-me desta metáfora:

Quando estamos perdidos num sítio desconhecido, no meio do nada, a melhor solução é parar e procurar ajuda. Perguntar a quem sabe, a quem conhece, a quem vive naquela realidade: “Desculpe, sabe o caminho?”

Tal como os transeuntes no meio da rua, nunca senti que qualquer uma das comunidades que contactei se sentisse ofendida ou incomodada por ter perguntado. Responderam da forma mais completa e esclarecedora possível e agradeceram o contacto. Por isso, de uma forma algo
autolaudatória tentando não o ser, vou falar de algumas dessas situações. As de tradução, não de quando me perdi no meio do Alentejo.

Numa série de adolescentes, a certa altura uma das personagens passa a identificar-se como não-binária. Claro que, numa língua como a nossa, isto colocou vários problemas. Em muitas situações era possível usar o clássico “fugir à questão”, não usando modificadores de género. Mas nem sempre era possível e tinha mesmo uma cena em que as personagens debatiam as formas de tratamento.

Depois de muito pesquisar, continuava a ter pouca certeza sobre como abordar a questão. Qual era a melhor forma de representar o pronome? E como é que tudo o resto se conjuga? Contactei várias associações e acabei por ter uma resposta de um colega tradutor da comunidade. Como era um trabalho escrito, a melhor opção acabou por ser o muito debatido “elx”, conjugado no singular, tal como se conjugaria “ele ou ela”.

Uns meses antes, ao trabalhar numa série árabe, fui confrontada com uma série de expressões que podiam parecer banais, mas que me fizeram perguntar: “Como é que a comunidade portuguesa diria isto? Sendo que Alá significa Deus, traduziriam ou não? Graças a Deus ou Graças a Alá? Será que usam a grafia portuguesa ou inglesa?” Afinal, ao contrário do que pensava, usam muito mais a grafia inglesa do que a portuguesa, possivelmente por se aproximar mais da fonética original. E não, não traduzem por Deus e tanto usam diariamente as expressões em árabe como em português.

Numa outra série, uma personagem era judia e usava muitos termos em hebraico que não têm tradução. Ao pesquisar, fiquei completamente baralhada com as grafias devido às diferenças fonéticas. Quando é que uso CH? Ou R? Ou H? Como não conhecia ninguém nessa comunidade, pedi ajuda à Comunidade Israelita de Lisboa que prontamente me respondeu. Fiquei a saber que usam “Hanucá”, e não “Chanucá”, mas que usam mais “shalom” do que “chalom” por simples hábito, e que o rabi, que eu sempre tinha usado, não é o termo usado pela comunidade, mas sim “rabino”. Aproveitaram para me explicar a diferença entre dois termos que nunca tinha sequer ponderado: israelita e israeliano. Tal como me foi explicado, e por mim confirmado noutras fontes, claro, “Israelita é um sinónimo de judeu e de hebreu e refere-se à religião. Os cidadãos de Israel (incluindo judeus, muçulmanos, druzos, etc.) são israelianos ou, no Brasil, israelenses”.

Nem sempre há tempo, disponibilidade ou sequer uma resposta do outro lado. Não deixa de ser a opinião de uma pessoa e ninguém tem tempo para fazer inquéritos a centenas de pessoas antes de entregar um trabalho. Podemos até discordar, por vários motivos, da resposta recebida e optar por não a utilizar. Não digo que todas as respostas que me deram seriam sempre as mais corretas em todas as situações e a escolha cabe sempre ao tradutor. Mas, nesse caso, é uma escolha consciente e informada.

Mesmo que não se passe por todo este processo, claro que não significa que vamos fazer uma má tradução ou um mau trabalho. Se a mensagem passa? Claro que sim. Se toda a gente percebe a ideia? Óbvio. Mas talvez já vos tenha acontecido, tal como a mim, olharem para uma legenda e dizerem: “Na minha comunidade/no meu grupo/na minha profissão/na minha religião, isso não se diz assim. Quem fez este trabalho claramente não percebe muito do assunto. Ninguém diz isso.”

Se além da representatividade conseguirmos também aplicar alguma “localização” nestas situações, penso que a maioria das comunidades se sentiriam mais incluídas, mais compreendidas e todos nós ganharíamos um bocadinho mais de conhecimento sobre outras realidades e sobre o mundo.


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Rita Castanheira

Fascinada desde sempre por línguas e por contar histórias, Rita Castanheira é tradutora, legendadora e revisora, tendo começado a trabalhar no mercado em 2015 depois de um curso de LLC na FLUL e de um mestrado em Tradução na FCSH. Quando não está a fingir que vive na Idade Média numa feira medieval, junta o trabalho e as línguas ao amor que tem pelas série e filmes.

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