Quem tem medo de palavrões?

“Palavrões”. Toda a gente os diz, pouca gente fala deles. Daí a minha (agradável) surpresa ao ler o artigo de Pedro Boucherie Mendes “O orvalho pela manhã”, no Expresso (15.07.2020), sobre a tradução de “palavrões” (entre parêntesis porque do que falamos, na realidade, é de linguagem tabu) na legendagem em Portugal. Se ainda não o leu, vá ler, vale a pena.

Em primeiro lugar, o dito artigo começa por louvar a (tradução para) legendagem feita em Portugal, portanto: obrigada! Falo, certamente, por mim e por vários colegas, académicos e profissionais da área da tradução, que fizeram correr o artigo ao partilhá-lo nas suas redes sociais. Isto porquê? Principalmente porque o artigo não castiga o tradutor audiovisual (aquilo a que, na verdade, estamos habituados…). Porque, sabemos nós, quem critica, quem censura, quem troça das opções dos tradutores nos filmes e séries não conhece a realidade dos tradutores audiovisuais portugueses. Saberão os espectadores que o tradutor português é dos que menos ganha na Europa? E dos que trabalha com prazos mais apertados? Talvez não. Quiçá os números que se seguem possam elucidá-los um pouco. Szu-Yu Kuo, na sua tese de doutoramento intitulada Quality in Subtitling. Theory and Professional Reality (2014, Imperial College London), baseada num questionário para tradutores audiovisuais difundido internacionalmente, dá-nos algumas pistas. Entre os 429 questionários obtidos, de tradutores audiovisuais de 39 países, o respondente que refere o valor mais baixo é um tradutor de, imagine-se, Portugal. Relativamente ao valor máximo, os respondentes portugueses dizem receber 2,8€ por minuto de filme o que pode ser comparado com os valores pagos aos tradutores em França, ou seja, 28,5€ por minuto de filme, mais de vinte vezes superior àquele praticado em Portugal. A esta hora, os tradutores que perderam cinco minutos para ler este artigo estão, agora, a torcer-se na cadeira e, com um sorriso de escárnio, pensam: agora entendem? Para além disto, diz ainda Szu-Yu Kuo que, de todos os respondentes, é um tradutor, imagine-se outra vez (!) de Portugal, quem refere ter o prazo de entrega mais curto, correspondente a 12 horas para um programa de 40 minutos (trabalho com template). Já o tradutor inquirido que refere ter o prazo de entrega mais extenso (cinco dias para um programa de 60 minutos, com template) é de França. Voltamos, novamente, a tremer na cadeira…

Regressando aos “palavrões”, e ao mote dado pelo artigo acima referido, Pedro Boucherie Mendes apresenta a sua opinião sobre a tradução e legendagem de palavras tabu na televisão portuguesa, focando, entre outros aspectos a diferença entre a televisão portuguesa e plataformas de streaming, como a Netflix. Boucherie Mendes refere como, na televisão portuguesa, as palavras tabu são “suavizadas”. Na verdade, é mais do que isto. O que elas são, de facto, é tendencialmente omitidas. Mais especificamente, são omitidas em quase 50% dos casos, eufemizadas noutros 24% e padronizadas em 7,5% dos exemplos. São mantidas (com exemplos fortes como “cabrão”, “caralho”, “foder”, pardon my french) em nem 20% das instâncias. Estes números resultam de uma análise bidireccional a 2141 pares de análise (texto de partida<->texto de chegada) em seis filmes em língua inglesa emitidos pela RTP e pela TVi (Xavier  2019). Estes números podem, ainda, ser somados a um estudo anterior sobre a tradução para legendagem de linguagem tabu em DVD (Xavier 2009) que, apesar de demonstrar menos omissão e mais manutenção do tabu na legenda, na generalidade as conclusões são similares e as estratégias neutralizadoras do tabu são, de longe, as mais frequentes. Então mas afinal quem tem medo de palavrões? Os tradutores? Os project managers? Os canais? A ERC? Ou a pressão de um espectador de características indefinidas, que potencialmente censura o tabu na tradução e legendagem? Os tradutores não serão certamente, pois, o estudo atrás referido (Xavier 2019) aplica um questionário longo a tradutores audiovisuais portugueses e, entre vários outros aspectos, conclui que a estratégia com que mais concordam é a manutenção das palavras tabu. Inquirir os espectadores sobre se, de facto, valorizam mais o decoro da linguagem na legenda ou a importância das palavras tabu na caracterização de personagens e no desenrolar da estória, seria um bom ponto de partida para descortinar um pouco mais esta realidade. Talvez assim se mudassem mentalidades relativamente à presença de “palavrões” nas legendas. Até lá, esperamos que a tendência de não censura da Netflix coloque a primeira pedra num caminho (mais apimentado?) de manutenção das palavras tabu nas legendas.   

Referências bibliográficas:

  • Boucherie Mendes, Pedro. Jornal Expresso. 15.07.2020. “O orvalho pela manhã”. Disponível em: https://expresso.pt/opiniao/2020-07-15-O-orvalho-pela-manha.
  • Kuo, Szu-Yu. 2014. Quality in Subtitling. Theory and Professional Reality. PhD Thesis. London: Imperial College London.
  • Xavier, Catarina. 2009. Esbatendo o tabu: estratégias de tradução para legendagem em Portugal. Dissertação de mestrado. Lisboa: Universidade de Lisboa.
  • Xavier, Catarina. 2019. Tabu e Tradução Audiovisual: um estudo descritivo de normas de tradução para legendagem de linguagem tabu em contexto televisivo. Tese de doutoramento. Lisboa: Universidade de Lisboa.

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Catarina Xavier

Catarina Xavier é investigadora do Centro de Estudos Anglísticos da Universidade de Lisboa. Tem um doutoramento em Tradução Audiovisual e a sua área de investigação é a legendagem. Os seus interesses recaem sobre os Estudos de Tradução, as Normas de Tradução, a Tradução Audiovisual e, mais especificamente, sobre a Tradução para Legendagem. Tem um fascínio pela Tradução e Legendagem de Linguagem Tabu, à qual tem dedicado os seus projectos de investigação. É membro da ATAV - Associação Portuguesa de Tradutores Audiovisuais e da ESIST - European Society for Studies in Screen Translation.

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