Três tipos de erros que vemos em legendas e como os evitar

O tradutor não é perfeito. O tradutor de audiovisuais muito menos. Tendo em conta as características da nossa profissão – os preços baixos, os prazos apertados, a falta de revisão antes de o produto ir para o ar – não admira que muitos de nós cometam erros.

O meu objetivo com este texto não é chicotear os tradutores que erram (telhados de vidro, não é?). O que pretendo aqui mostrar são os erros mais comuns que vemos em legendas e como os podemos evitar enquanto profissionais (apesar das condições em que fazemos o nosso trabalho, que deixam quase sempre a desejar). Isto serve também para aconselhar todos os “treinadores de bancada” que pensem “Vê-se tanto erro nas legendas. Eu fazia melhor, sei inglês e tudo” para que percebam que, em tradução, nunca basta só saber uma língua estrangeira. Talvez muitos dos erros que vemos em tradutores amadores – e que o público também, pois algumas críticas devem-se a pessoas sem a formação devida que trabalham “profissionalmente” – derivem desta falácia que, espero, seja um bocado desconstruída com este artigo (e, quem sabe, outros futuros).

Penso que podemos classificar estes erros de que falo em 3 categorias: erros gramaticais, erros de tradução e erros de legendagem. Para cada um ofereço a minha opinião, que, como diz o outro, “vale aquilo que vale”, para evitar que estes erros aconteçam.

Erros gramaticais

São, talvez, os que mais saltam à vista do espectador. Regra geral, a maioria que se vê são gralhas, fruto do pouco tempo que se tem para se fazer o trabalho. No entanto, alguns destes erros são também derivados do desconhecimento de algumas das regras do português. Ao contrário do que se pode pensar, não aprendemos a detetar todos os erros de português (ou a saber utilizar o português mais correto) na escola. É preciso descobrirmos que erros podemos estar a dar mesmo sem saber.

Como evitar?

O meu conselho seria ler gramáticas e livros do género, como por exemplo os denominados “erros de português”, dos quais há vários. Estes últimos são de leitura mais fácil do que uma gramática, mas nada substitui a dita cuja. Outra solução é fazer cursos ou workshops que abordem estas questões da língua e onde aprendemos sempre mais sobre o que fazemos bem ou mal.

Erros de tradução

Após os erros gramaticais, diria que são os erros de que o público mais se queixa. Podem derivar de expressões mal traduzidas por fruto do desconhecimento da expressão original ou, por vezes, do seu equivalente na língua de chegada, podem ser causadas por palavras mal percebidas (como quando fazemos a tradução de ouvido), ou até por palavras com duplos significados que nos podem induzir em erro.

Como evitar?

A maioria dos erros de tradução tem origem num desconhecimento da língua e cultura de partida. Neste caso, é aconselhável consumir o máximo possível dessa mesma língua e cultura, através da leitura ou de conteúdos audiovisuais da própria (séries, filmes).

Para aqueles que são causados por uma má interpretação do diálogo, o meu conselho é treinarem o ouvido. Habituarem-se a trabalhar mais de ouvido é uma forma de conseguir isto. Outra, mais de lazer, é ver filmes, séries, vídeos, o que seja, sem legendas.

Erros de legendagem

Estes últimos são quase invisíveis para a grande maioria dos espetadores, mas há críticas que se prendem com o aspeto técnico da legendagem. Há pessoas, por exemplo, que se queixam da velocidade das legendas que não lhes permite ler inteiramente a deixa. Outras reclamam do contraste das letras da legenda com a imagem, nomeadamente quando tanto as letras como o sítio em que aparecem são da mesma cor (regra geral, o branco).

Como evitar?

É neste tipo de erros que entra a formação do tradutor de audiovisuais em legendagem. Se nem para traduzir basta saber uma língua, em audiovisuais muito menos esse é requisito único. Saber legendar não é simplesmente saber marcar tempos. Há que ter em conta as quebras de linha (que afetam a facilidade da leitura da legenda), a velocidade de leitura (que afeta a leitura da legenda) e, em alguns casos, o tipo e tamanho de letra (é de apontar que, na área do entretenimento, esta última é sempre da responsabilidade do canal de televisão ou plataforma de streaming).

A melhor forma de se evitar erros de legendagem é estudar legendagem. Não é por acaso que há livros (e extensos!) sobre este ramo da tradução de audiovisuais. Em alternativa, há também cursos dedicados ao ensino básico, intermédio e avançado de legendagem que todos os que se consideram legendadores profissionais deviam fazer. É um ramo em constante mudança, onde todos os anos se descobre algo novo, uma forma melhor de fazer algo, o que seja. Por muito que se saiba fazer agora, não significa que estaremos a aplicar as melhores práticas daqui a 5 anos se não nos mantivermos atualizados. Tal como o cirurgião que vai aprendendo novas técnicas para operar, também o tradutor tem de se adaptar às novas tecnologias constantemente. A aprendizagem é contínua.

Está claro, portanto, que ser tradutor para legendagem não é tarefa fácil nem é trabalho para quem “só quer ganhar uns trocos”, como prometem muitas empresas na esperança de fisgar quem não percebe o trabalho por trás da tradução. Os que se dedicam a isto profissionalmente assumem um compromisso de rigor que passa por ser o melhor profissional possível. E isso depende da nossa constante sede em querer aprender mais. Parafraseando um dos nossos colegas, é preciso cultivarmo-nos.


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Susana Loureiro

Susana Loureiro é uma tradutora e legendadora portuguesa. Licenciou-se em Línguas, Literaturas e Culturas, com minor em Tradução, em 2014, ano em que começou a sua carreira nesta área. Trabalhou durante mais de 5 anos numa empresa de tradução também como gestora de projetos. Atualmente, é tradutora freelance. A sua área de especialização é a legendagem. É ainda cofundadora e atual presidente da ATAV.

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