O ABC do Cinema na Tradução de Audiovisuais

Bobina de filme a preto e branco

Tal como é necessário para um tradutor literário que tem pela frente a tradução de um romance, obra biográfica ou poesia saber a linguagem inerente a esses tipos de textos literários, também um tradutor de audiovisuais devia dominar, ou, pelo menos, estar ciente da linguagem cinematográfica.

É verdade que as produtoras cinematográficas começaram por dar preferência a tradutores com um background profissional em cinema; não que isso deva ser um requisito, até porque a comunidade cinematográfica já é suficientemente fechada e não precisa que se alimente ainda mais esse distanciamento. No entanto, atualmente, o caminho percorre-se no sentido inverso. Temos os conhecidos casos de alguns gigantes do streaming a anunciar emprego em tradução de audiovisuais, particularmente para legendagem, com uma atitude de “Gostas de séries? Então, vem legendar connosco”. Para além de que não basta, evidentemente, gostar de séries para se ser bom tradutor, é preciso, lá está, dominar as línguas e culturas de partida e chegada. Mas também não chega ser-se apenas especialista da língua.

Assim sendo, vou apresentar neste artigo alguma terminologia relacionada com cinema que penso ser fundamental para um tradutor de audiovisuais, quer traduza filmes, séries, documentários, etc., e apresentar os meus argumentos do porquê da sua importância na tradução de audiovisuais.


Breve glossário

de terminologia cinematográfica

Plano/Cena (shot/scene)

O plano é a unidade fundamental do cinema e é com ele que começa a sua linguagem. Já todos ouvimos falar em fora de plano e dentro de plano, mas o plano vai para além disso. O plano, inclusive, pode ser o filme todo (pense-se em A Corda, de Hitchcock, A Arca Russa, de Aleksandr Sokurov, ou, mais recentemente, Birdman, de Alejandro G. Iñárritu e 1917, de Sam Mendes). Resumidamente, está em plano tudo aquilo que vemos na imagem e um plano pode ter várias escalas e movimentos. Este pode também ser uma unidade temporal, particularmente no caso dos jump cuts.

Já a cena, segundo Jacques Aumont e Michel Marie, no seu Dicionário Crítico e Teórico do Cinema, representa toda a zona de representação e o lugar imaginário onde se desenrola a ação. Por outras palavras, a cena é tudo o que se enquadra dentro do plano e também o que está para além dele e estende-se até à mudança de local da ação, que normalmente vem acompanhada de um salto temporal (p. ex., a transição para negro, ou fade to black, marca o fim de uma cena).

Porque é que importa?

É frequente os tradutores confundirem plano e cena, normalmente quando há uma personagem num espaço diferente, como atrás de uma porta, ou quando uma personagem está a falar ao telefone com outra. Quando uma personagem não está fisicamente visível, como no caso de estar a falar atrás de uma porta, diz-se que está fora de plano, mas está em cena, daí não fazer sentido utilizar-se itálico nestes casos, porque a personagem está no mesmo “lugar imaginário” do que as restantes, apesar de não a podermos ver. Já quando ouvimos apenas a voz de uma personagem ao telefone, ela está, efetivamente, em cena, mas faz sentido utilizar itálico para indicar a mudança no som da voz da personagem e a sua maior distância em relação ao primeiro caso.

Figura 1. Todos sabemos o que acontece nesta famosa cena de Shining, de Stanley Kubrick.
Aqui, Jack Nicholson está fora de plano, mas em cena.

Grande plano (close-up)

Gilles Deleuze, um dos grandes teóricos do cinema, diz-nos que o grande plano é “a imagem-afeção”, e o que representa melhor a afeção do que o rosto? Este tipo de plano é a expressão máxima do potencial da carga dramática no cinema e um plano querido de muitos mestres do cinema durante a Era de Ouro do Cinema Americano.

Porque é que importa?

Se há coisa que o público cinéfilo não gosta é que o grande plano seja obstruído. Se possível, o ideal, neste caso, seria manter a legenda com apenas uma linha, para o plano perder o mínimo de expressão dramática possível e não incomodar o espectador num momento que pode, muitas vezes, ser o clímax do filme.

Figura 2. É evidente a força que a imagem perde com uma legenda de duas linhas como esta,  para além dos graves erros de formatação.

Plateau (set)

O plateau é o espaço físico em que ocorre a rodagem de um filme, normalmente inserido dentro de um estúdio, mas também pode montar-se em exteriores, o chamado location shooting, como no caso de A Guerra dos Tronos, que foi filmada na Irlanda do Norte, na Islândia, na Croácia e em Espanha, para além de ter sido rodada em estúdio. Há muitos realizadores que preferem a rodagem em estúdio, sendo um dos mais emblemáticos Alfred Hitchcock. Isto porque permite maior controlo no plateau no caso da iluminação e do som, por exemplo.

Porque é que importa?

Muitos tradutores têm dificuldade em traduzir set e o que acontece, frequentemente, é optarem por traduzir para palco. Estaria correto no caso do teatro, visto que é a plataforma onde os atores atuam e onde o cenário está montado. No entanto, não se utiliza palco no cinema.

Figura 3. O plateau de A Corda, de Alfred Hitchcock

Argumento/Guião (screenplay/script/teleplay)

Neste caso, também existe alguma confusão por parte dos tradutores por não saberem a que meio audiovisual corresponde cada tipo de texto narrativo.

O argumento (screenplay) é um documento narrativo que descreve aquilo que será filmado. O argumento costuma conter os diálogos do filme e está dividido em cenas. Já o guião é, para os puristas, um termo mais utilizado nas produções televisivas do que no cinema. As coisas complicam-se um pouco, porque script, para alguns, pode ser usado tanto no cinema e na televisão como no teatro. No entanto, há quem remeta o termo apenas para o teatro, e, aqui, é também considerado um argumento. Já teleplay é bastante evidente que se refere apenas a uma produção televisiva.

Resumidamente, o que recomendo é usar argumento para cinema e teatro e guião para televisão.

Figura 4. Excerto do argumento de O Amor É um Lugar Estranho
 (Lost in Translation), de Sofia Coppola

Espero que estes seis exemplos de terminologia cinematográfica vos ajudem nas vossas traduções e também a compreender um pouco melhor a linguagem do meio em que trabalhamos.

Está claro, portanto, que ser tradutor para legendagem não é tarefa fácil nem é trabalho para quem “só quer ganhar uns trocos”, como prometem muitas empresas na esperança de fisgar quem não percebe o trabalho por trás da tradução. Os que se dedicam a isto profissionalmente assumem um compromisso de rigor que passa por ser o melhor profissional possível. E isso depende da nossa constante sede em querer aprender mais. Parafraseando um dos nossos colegas, é preciso cultivarmo-nos.


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Nuno Sousa Oliveira

Nuno Sousa Oliveira é tradutor, legendador, cinéfilo e crítico de cinema. Licenciou-se em Cinema e Audiovisual pela Escola Superior Artística do Porto e trabalhou durante alguns anos como editor de vídeo, videógrafo e fotógrafo. Decidiu, em 2015, aliar cinema e tradução, matriculando-se no Mestrado em Tradução da Faculdade de Letras de Lisboa, onde se especializou em Tradução Audiovisual. Trabalhou em algumas empresas de tradução audiovisual antes de passar a freelance a tempo inteiro. É também um dos cofundadores da ATAV.

2 thoughts on “O ABC do Cinema na Tradução de Audiovisuais”

  1. Gostei muito, obrigado!
    É interessante que comprovar como neste campo semântico há mesmo muitas diferenças com a terminologia usada em Espanhol.
    Eu trabalho muito com conteúdos adicionais, episódios comentados, etc., e é preciso saber mesmo do que se fala… Acho que as minhas duplas diabólicas são take/shot e sequence/scene.
    E gostei muito do pormenor da linha do grande plano. Grande artigo!

    1. Obrigado pelas tuas palavras, Adán. Se o artigo ajudar nem que seja uma pessoa, já é ótimo.
      Num próximo artigo, estava a pensar explicar a diferença entre sequência e cena, por acaso. Esses dois termos causam bastante confusão, mesmo entre cinéfilos.

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