20 anos de TAV: Rosário Valadas Vieira

O mundo mudou muito nos últimos 20 anos. Os telemóveis e os computadores tornaram-se essenciais para todos os portugueses. Nasceram as redes sociais. O digital explodiu. E o impacto destas mudanças afetou também o mundo da tradução de audiovisuais.

Contactámos vários profissionais relacionados com a TAV que tenham vivido este período de 20 anos para eles partilharem connosco a sua experiência das duas últimas décadas. Esta semana contamos com a entrevista a Rosário Valadas Vieira.

Rosário Valadas Vieira é tradutora, revisora e formadora em cursos de Tradução para Legendagem, desde 1997, em colaboração com a APT, com a Solegendas e mais tarde através da Sintagma. É licenciada em Estudos Portugueses e Ingleses – Línguas e Literaturas Modernas – pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Fez formação em legendagem na TDM – Teledifusão de Macau, em 1984. É conferencista em seminários e palestrante em várias faculdades. Em 1993, fundou a Sintagma Traduções Unipessoal Lda., sendo a sua directora-geral desde então.


Como era o mundo da TAV para si no início do século?

RVV: Esta pergunta é bastante curiosa. Trabalhei quase duas décadas antes do fim do século. Por conseguinte, no início deste século já tinha ultrapassado várias etapas de transformações substanciais. No início do século XXI, ainda trabalhávamos com VHS, mas já em ambiente Windows e não DOS. Já não precisávamos do papel e da máquina de escrever para traduzir, mas ainda usávamos o televisor e o leitor de VHS, além do computador com um monitor e teclado especial, próprio para legendar. O conjunto de equipamentos para poder traduzir e legendar era, portanto, bastante numeroso e volumoso, comparado com o que temos atualmente. Hoje, num simples portátil conseguimos fazer o mesmo trabalho. O cliente entregava-nos a VHS e o guião em papel, traduzíamos e legendávamos em equipamento adequado. Eu usei o Win2020, da Screen Subtitling Systems. Mais tarde, surgiu o Vidcache, componente que se instalava no computador e que nos permitia controlar o vídeo no teclado, em vez de usar o comando do leitor de vídeo, o que veio agilizar muitíssimo o processo de legendagem. Os ficheiros de legendas produzidos em formato .pac eram guardados em disquetes de 3.5”,  onde se guardava um filme ou episódio de série, e posteriormente eram entregues em mão na estação de televisão, para posterior tratamento técnico. Escusado será dizer que, com todas estas condicionantes, produzíamos muito poucos minutos de tradução por dia, comparado com a quantidade de minutos que conseguimos traduzir e legendar nos dias de hoje.

O que mudou nos últimos 20 anos, na sua opinião?

RVV: Nos últimos 20 anos, o mundo da TAV sofreu alterações ainda mais profundas. Os elementos físicos foram substituídos pelo digital. A dependência dos escassos dicionários em papel foi substituída rapidamente pela facilidade de pesquisar literalmente tudo na Internet e obter informação sobre qualquer tema. Nem sempre fidedigna, é certo, mas pelo menos passível de ser discutida e esclarecida. Esta inovação veio revolucionar por completo, não só a forma de trabalhar como também a rapidez e a qualidade da atividade de tradução audiovisual. Uma pesquisa que anteriormente poderia levar dias, ou mesmo ser inviável, passou a fazer-se em segundos. A tradução do produto audiovisual passou gradualmente a quase dispensar o guião em papel, tornando-se uma interpretação simultânea, uma tradução digitada no teclado diretamente a partir do áudio noutra língua, sendo assim muito mais fluida, natural e coloquial. Apesar de continuar a haver erros de tradução, tradutore traditore, a Internet não ajuda o tradutor a ser infalível, não lhe dá cultura geral nem conhecimentos enciclopédicos ilimitados. Há sempre vários fatores que contribuem para os erros ou lapsos no processo tradutório, no entanto, é incontornável que a Internet nos proporcionou um desenvolvimento intelectual e tecnológico surpreendente nestes últimos 20 anos. 

O que prevê para o futuro?

RVV: O futuro é sempre incerto e posso estar enganada, mas prevejo que o tradutor vai continuar a ter um papel preponderante no exercício de transposição de um texto de uma língua para outra. Enquanto a tradução técnica tem um grande apoio em programas de tradução automática, usufruindo de memórias de tradução, que com algum trabalho de edição permitem poupar recursos e apresentar uma boa qualidade, a tradução audiovisual, que também pode beneficiar dessas ferramentas, naturalmente, depende sobretudo da emoção, da interpretação, do segundo sentido, da insinuação e de muitos outros fatores que contribuirão para diferentes traduções com diferentes níveis de qualidade, embora com idêntica correção. O fator humano é essencial para traduzir conteúdos audiovisuais.  


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