20 anos de TAV: Francisco Marques

O mundo mudou muito nos últimos 20 anos. Os telemóveis e os computadores tornaram-se essenciais para todos os portugueses. Nasceram as redes sociais. O digital explodiu. E o impacto destas mudanças afetou também o mundo da tradução de audiovisuais.

Contactámos vários profissionais relacionados com a TAV que tenham vivido este período de 20 anos para eles partilharem connosco a sua experiência das duas últimas décadas. Esta semana contamos com a entrevista a Francisco Marques.

Francisco Marques nasceu em Lisboa em 1965. Em 1988 terminou a licenciatura em Direito ao mesmo tempo que completou cursos de línguas na Alliance Française, no American Language Institute e no Goethe-Institut. Nesse mesmo ano entrou no mundo da tradução com a tradução do livro Animal Farm de George Orwell para a Livros do Brasil. Em 1993 começou a trabalhar em tradução audiovisual, não tendo mais parado até hoje. Em 2004 passou a dedicar-se em tempo integral à tradução e dois anos depois terminou o mestrado em Tradução e dedicou-se quase em exclusivo à tradução audiovisual. A partir de 2007 iniciou-se na legendagem eletrónica em tempo real de festivais de cinema e espetáculos de ópera e música clássica. Conta, nestes 27 anos de atividade, com largas centenas de filmes, séries e documentários traduzidos e legendados para televisão, cinema, DVD e espetáculos ao vivo.


Como era o mundo da TAV para si no início do século?

FM: Quando me iniciei no mundo da TAV em 1993, era um mundo novo que se abria. Mas também muito restrito. Recordemos que esse foi o ano em que estreou o 4º canal de televisão em Portugal, a TVI, que seguiu a SIC que tinha começado a operar no ano anterior. Tínhamos por isso 4 canais de televisão e para além deles, a tradução e legendagem para VHS e cinema era muito pouca e com técnicas muito diferentes entre elas e por vezes complexas. Era por isso uma profissão onde pouca gente trabalhava, havia poucos meios didáticos, os programas informáticos para legendagem estavam também no início do seu desenvolvimento e para fazermos as aprendizagens, de certa forma tínhamos de ser um pouco autodidatas, muita tentativa e erro, para levarmos a bom porto a atividade. Era por isso complicado, mas obviamente aliciante, percebíamos que estávamos a começar algo e estávamos todos ansiosos por fazer parte desse novo mundo.

O que mudou nos últimos 20 anos, na sua opinião?

FM: Muita coisa.

Primeiro, a quantidade de trabalho disponibilizado. Com a chegada dos canais de televisão por subscrição (ou canais de TV Cabo), passámos, gradualmente, de quatro canais para mais de 150 com necessidades de tradução e legendagem, o que aumentou imenso a quantidade de trabalho. Também a chegada e massificação do DVD e do cinema em casa levou a que uma enorme quantidade de filmes, atuais e clássicos, tivessem de ser traduzidos e legendados para responder à crescente procura. Mais recentemente, as novas plataformas de comunicação também exigem mais trabalho da nossa parte para responder à crescente disponibilização de conteúdos. E devido a uma maior quantidade de trabalho, também cresceram muito as empresas e profissionais a dedicarem-se a esta atividade.

Outra grande alteração nestes últimos 20 anos foi a dos meios técnicos e de software. Para trabalhar para televisão ou para cinema em cassetes de VHS, quando comecei, em 1993, era assim: não podíamos trabalhar em portáteis, tínhamos de ter o velho PC com a sua “torre” (com a sua placa de vídeo e placa de som) e tínhamos de comprar e instalar-lhe uma placa especial (que não era barata), para ler os timecodes das cassetes VHS e cuja instalação não era fácil. Depois, precisávamos de um leitor/gravador de VHS Estéreo que era ligado ao PC para ler as cassetes de VHS onde nos entregavam os trabalhos a fazer. E tudo tinha de estar sincronizado. Não era tarefa fácil! Para não falar do vaivém constante para ir buscar as cassetes de VHS à empresa que nos fornecia o trabalho, levar para casa para traduzir e depois irmos legendar ao computador da empresa se não tínhamos possibilidade de ter as placas de timecode no nosso computador em casa… E legendar para cinema? Esqueçam tudo o que contei antes, era todo um outro mundo, que envolvia os enormes rolos e películas de filme…

Por fim, a última grande mudança (não forçosamente para melhor): os preços. Com o aumento de trabalho, aumentaram os protagonistas, as empresas e o esmagamento cada vez maior dos preços para o tradutor. Se vos disser que há 10 anos o preço pago ao minuto era superior ao que é pago hoje, acreditem. Porque é verdade. Há dez anos fazia-se uma vida confortável vivendo exclusivamente da tradução audiovisual. Hoje, não é fácil ou é quase impossível.

O que prevê para o futuro?

FM: Em primeiro lugar, considerando que estamos num mundo cada vez mais global, multilinguístico e com trocas permanentes de informação, o nosso trabalho será sempre necessário. Com o aumento de importância de países emergentes com línguas que até há pouco tempo tinham menos relevância mundial, é importante diversificarmos e aprendermos novas línguas (mandarim, hindi, árabe, etc.).

Depois, temos o desafio dos novos softwares de tradução e legendagem automática que se estão a desenvolver. Não sendo precisos nem compreendendo as subtilezas de cada língua, acredito que ainda levarão muitos anos a desenvolver-se e entretanto cabe-nos a nós mostrar, com a qualidade e precisão do nosso trabalho, a nossa importância e relevância enquanto tradutores e legendadores para a compreensão de cada trabalho. É algo que nos exige, é claro, um constante estudo, atenção e atualização de conhecimentos para estarmos sempre ao corrente de novas modas, novas tendências, novos jargões, etc… 

Depois, os preços. É cada vez mais difícil viver exclusivamente desta profissão. Os preços praticados são muito baixos, é preciso também no futuro criar formas de pressionar com vista ao aumento do valor pago aos tradutores para dignificar esta profissão e conseguirmos manter o alto nível de responsabilidade e profissionalismo exigido, pois a qualidade só se consegue se trabalharmos com condições e tempo adequados. Nunca nos podemos esquecer que o nosso trabalho é lido por milhões de pessoas e por consequência, a responsabilidade do que fazemos é muito grande.

Por último, dizer que não estou nada arrependido de me ter dedicado à tradução audiovisual, já lá vão muitos anos. É um trabalho fascinante e muito diverso e para quem se quer dedicar a esta atividade é sempre importante lembrar, mais ainda para aqueles que trabalham por conta própria, os pilares essenciais: autodisciplina, qualidade do trabalho, constante atualização…


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