Desbravar o Mundo da Dobragem – Uma Introdução

A tradução audiovisual (TAV), sendo uma das mais escrutinadas e criticadas, engloba a legendagem, a dobragem e o voice-over, entre outros. No entanto, sendo a tradução para dobragem a minha especialização, é sobre esse tema que nos vamos debruçar neste artigo.

Curiosamente, se a legendagem recebe a denominação de “mal necessário”, Chorão apelida a dobragem de “mal-amada” (podem ler esta tese aqui). Uma das principais críticas à dobragem no cinema prende-se com o facto de muitas vezes se substituir uma voz célebre na cultura de partida por uma menos conhecida na cultura de chegada.

Durante a minha adolescência, em França, mergulhei rapidamente na dobragem, o que não aconteceu quando cheguei a Portugal e verifiquei que a legendagem era a técnica de tradução audiovisual predileta. Para um português, ligar a televisão ou assistir a um filme em França ou em Espanha pode ser uma experiência estranha. Acontece simplesmente porque um português não está afeito a ouvi-la noutro idioma que não o inglês. De facto, existem várias barreiras que separam a Europa, uma vez que há países que preferem as dobragens como a Espanha, a França, a Itália e a Alemanha, os que defendem as legendas, tais como os países nórdicos, a Holanda, o Reino Unido ou Portugal, e os que optam pelo voice-over, a alternativa mais barata da tradução audiovisual, como a Europa oriental.

Abundam explicações acerca das opções de cada país, mas as razões são complexas, podendo tratar-se de opções políticas ou económicas.

No entanto, para um tradutor audiovisual, esta técnica de tradução é um processo mais trabalhoso e lento em relação à legendagem, uma vez que é subordinado a três tipos de sincronismos: sincronismo labial, sincronismo cinético e isocronismo. Para além destes aspetos, é um trabalho em equipa que requer muita coordenação, consistência e coerência na tradução. Quando iniciamos um trabalho de tradução para dobragem em equipa, criamos, por exemplo, uma folha Excel (tabela de coordenação) que é partilhada entre os tradutores, o cliente e o estúdio, onde colocamos os nomes das personagens (se os traduzimos ou não e graus de parentesco entre todos), a tabela com a forma de tratamento entre cada personagem (formal ou informal), as canções, a lista da terminologia uniformizada, a lista do vocabulário proibido (palavrões, expressões, etc.), entre outros. Para além dessa folha de partilha, por vezes, ainda utilizamos a técnica de brainstorming através de um grupo formado, a título de exemplo, no WhatsApp,  onde trocamos regularmente ideias e tomamos decisões, de forma consensual, para levar a bom porto o nosso trabalho de tradução.

Finalmente, ao contrário da legendagem, na dobragem, tudo deve ser traduzido e/ou transcrito no script, tais como as falas de 1.º, 2.º e 3.º planos, os vozerios, as interjeições, os suspiros, os risos, os sotaques, em suma, todas as reações para que os atores possam dobrar cada uma delas.

Não há dúvida de que a dobragem é um trabalho árduo e complexo. Por isso, as empresas devem recorrer a profissionais que sejam capazes de executar uma tradução que tenha em conta todas as características supracitadas, com qualidade e rigor.

Trata-se de um verdadeiro desafio, uma vez que, se não fizermos um trabalho com as boas bases, se não colocarmos os alicerces, o desenrolar da “obra” vai correr mal e o resultado final vai ser o desabamento da construção da nossa “ponte cultural”, sendo as consequências terríveis aquando da gravação nos estúdios com os atores. Por conseguinte, o resultado da dobragem, que não deixa de ser uma técnica interessante e imprescindível na área do audiovisual, está nas nossas mãos, nas mãos dos tradutores, que devem ser capazes de construir uma ponte cultural entre a língua de partida e de chegada sólida e cujo público consegue atravessar sem obstáculos, desfrutando da “paisagem” imagética concomitantemente com a “paisagem” linguística.


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Manuela Domingues

Licenciada em Línguas Estrangeiras Aplicadas da Universidade do Minho e pós-graduada em Tradução para Legendagem do ISTI, trabalha como tradutora desde 2007, tendo-se especializado em tradução para dobragem em 2018. É a fundadora da MD-TRAD, UNIPESSOAL LDA e faz parte da ATAV e da APTRAD.

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