Procuram-se tradutores

Nas últimas semanas, temos vindo a observar que a procura por tradutores para projetos de legendagem tem aumentado, tanto por parte de empresas nacionais como internacionais. O aumento de projetos audiovisuais poderá justificar esta procura, não sendo incomum sobretudo na altura que antecede o verão. Contudo, também levanta uma questão que tem sido muito falada nos últimos tempos: haverá falta de tradutores?

São vários os artigos que falam do chamado talent crunch na área da legendagem. É algo de que muitas empresas se têm vindo a queixar, nomeadamente quando se fala em pares linguísticos “mais exóticos”; ou seja, atualmente, e usando o exemplo da nossa língua, tudo o que não seja de inglês para português. Até línguas de partida que em Portugal eram consideradas comuns há uns anos (o espanhol, o francês, o italiano e o alemão) são línguas de trabalho cada vez mais raras e, devido à prática crescente da tradução a partir de um template em inglês, cada vez menos fomentadas, no currículo dos tradutores, sendo assim mais difícil encontrar quem traduza a partir destas línguas. Mas o que poderá estar na origem desta falta de tradutores?

Não há dúvida de que o que leva tantos profissionais a sair da área e desencoraja tantos outros de sequer entrarem nela são as condições de trabalho a que os profissionais de legendagem estão atualmente sujeitos. Prazos apertados, comunicação insuficiente e, acima de tudo, os preços praticados minam a sustentabilidade da profissão do tradutor de legendagem, levando-os para outras áreas da tradução ou até para outra profissão não ligada a esta. Perante estas condições, como podemos manter tradutores na área e colmatar a falta deles?

A resposta mais fácil é aumentar os preços. Os valores praticados na área da legendagem em Portugal ou se mantiveram iguais nos últimos 20 anos ou desceram, ignorando fatores externos como a inflação ou a subida do custo de vida, resultando numa estagnação salarial de décadas. Ainda que o volume de trabalho tenha aumentado, sobretudo graças a novas formas de consumir conteúdo audiovisual, e a tecnologia tenha vindo a tornar o processo de legendar mais rápido, não só o rigor esperado aumentou, sendo os profissionais sujeitos a um escrutínio constante não só por parte de clientes como do público, como os prazos apertaram, devido à exigência e expectativa de ter um conteúdo disponível e legendado num espaço de tempo o mais breve possível após a sua estreia além-fronteiras.

Numa altura em que tantas empresas procuram mão de obra, os tradutores têm a opção de escolher com quais trabalhar, podendo optar pelas empresas que oferecem os preços mais atrativos. E isto não se aplicará apenas aos novos tradutores: aqueles que já trabalham com uma empresa que se encontre à procura de mais profissionais poderão sugerir um aumento de preço de forma a garantirem mais volume, optando por aceitar menos de empresas que paguem valores inferiores.

Outro aspeto que merece ser mencionado é a falta de formação na área. Apesar de muitas universidades com licenciaturas e mestrados em Tradução incluírem um módulo dedicado à legendagem, inserido numa outra disciplina, nem sempre esta formação, muitas vezes insuficiente em termos de horas, pobre em termos de recursos informáticos ou desatualizada em termos de conteúdos, se adequa às necessidades das empresas, que procuram profissionais capazes de trabalhar autonomamente. Uma solução será, portanto, o investimento na formação de novos tradutores a partir das próprias empresas, o que algumas poderão já estar a adotar.

Este poderá ser um ponto de viragem na nossa área, sobretudo à medida que observamos a crescente tendência para utilizar a tradução automática na legendagem. Além disso, é também um ponto de viragem devido à inflação que vivemos atualmente e que irá aumentar o custo de vida no nosso país, e não só. Assim, os tradutores têm neste momento algum poder nas suas mãos. Podem procurar preços que lhes permitam continuar a trabalhar na área que escolheram, quer nas empresas com que trabalham, quer nas empresas com que podem vir a trabalhar. 

O trabalho do tradutor é essencial.  Mesmo que a tradução automática se torne a norma e que a máquina aprenda a legendar, as competências linguísticas e técnicas de legendagem, a criatividade e o toque humano são elementos que nunca se tornarão obsoletos, mas precisam de ser valorizados hoje para que um dia continuemos a tê-los ao nosso dispor. 

Valorizemo-nos para que outros nos valorizem e possamos garantir a sustentabilidade do tradutor para legendagem.


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