Este mês, o CENA-STE (Sindicato dos Trabalhadores de Espetáculos, do Audiovisual e dos Músicos), em parceria com a ATAV, que auscultou os profissionais do setor, publicou valores de referência para a tradução de audiovisuais.
Estes valores indicativos dizem respeito a todas as áreas da tradução de audiovisuais, que inclui a legendagem, a tradução para dobragem, a legendagem para surdos e ensurdecidos (LSE), a audiodescrição e a localização de videojogos. A referência para o cálculo dos valores foi o salário mensal ilíquido da posição remuneratória 1 da carreira de Técnico Superior da Administração Pública (1442,57€ ilíquidos mensais), uma vez que se trata de uma carreira reservada a profissionais que possuem um curso superior, tal como a esmagadora maioria dos tradutores de audiovisuais. Para calcular o valor que um tradutor deveria ganhar por dia, ou seja, em oito horas de trabalho, para atingir um valor equivalente a esse salário, foi considerada a quantidade de trabalho que um tradutor consegue produzir em média nesse tempo, medida em minutos de vídeo, legendas ou palavras, consoante a modalidade de tradução de audiovisuais. Ou seja, os valores por minuto, legenda e palavra apresentados permitiriam a um tradutor que produza dentro da média auferir um rendimento mensal equiparável ao salário de um Técnico Superior na posição remuneratória 1.
O cálculo também teve em consideração a profunda precariedade do setor, que ficou patente nos resultados do Inquérito sobre as Condições de Trabalho dos Tradutores de Audiovisuais em Portugal, que a ATAV publicou em 2024. Segundo o inquérito, 43% dos tradutores de audiovisuais registam um rendimento anual abaixo do salário médio nacional, e 33% um rendimento anual abaixo do salário mínimo nacional (22 960€ e 11 480€, respetivamente, à data da realização do inquérito). Isto apesar de a grande maioria dos tradutores de audiovisuais deter altos níveis de especialização académica e profissional e de a sua média de anos de experiência rondar os 11 anos.
À parca remuneração junta-se a agravante do desgaste mental, que muito condiciona o bem-estar físico e psicológico dos tradutores. O inquérito revelou que a maioria dos tradutores tira apenas entre duas e três semanas de férias, menos do que os 22 dias úteis consagrados no Código de Trabalho. Alguns inquiridos (8%) não tiram um único dia de férias. A isto junta-se o facto de que muitos trabalham mais do que oito horas por dia e não descansam ao fim de semana, o que prejudica a sua vida pessoal e familiar. Além disso, os tradutores freelancers não recebem o 13.º e o 14.º mês (subsídio de Natal e subsídio de férias), ao contrário dos trabalhadores com contratos de trabalho.
Assim, os valores calculados permitem que os tradutores de audiovisuais aufiram um rendimento anual equiparável ao da posição 1 da carreira de Técnico Superior trabalhando 11 meses por ano e ficando com um mês de descanso. Tomando como referência o salário da posição 1 de Técnico Superior, de 1442,57€ ilíquidos mensais, que corresponde a um rendimento anual ilíquido de 20 195,98€ (1442,57 x 14 meses), os tradutores obteriam um valor ilíquido mensal de 1835,99€ (20 195,98€ / 11 meses).
Os valores de referência podem ser consultados aqui.
Nota: os valores indicados pelo CENA-STE são meramente de referência e não têm qualquer valor vinculativo.